A inconstância de um existir não é uma mera sedução humana, mas um encontrar-se inusitado. Algumas falácias desleixadas provocam crises de âmagos ferventes, que nem sempre são curáveis. Indiferente ao que o cerca, entristece ao anoitecer emocional e simplesmente revela o que jamais foi necessário. Despiu-se diante de si mesmo e possíveis falhas indesejadas amedrontaram seus sonhos celestiais. Aquela bela hipocrisia infantil que assola os corações mais fracos, apenas interfere no agir de certos formatos. Sinto seus olhares perversos que delimitam o pensar alheio. Um viver só é um todo quando mergulhado em utopias e singelas emoções fatais. A brisa fraca que percorre meus cabelos é como um acalento perante minha insanidade. Não importa a doçura do seu sorriso sentimental, sempre haverá um impostor que gentilmente julgará o tamanho dos seus dentes. O horizonte cinzento engole o mar de suspirantes segredos. Quando o exílio mental apossar-se de seu levar despreocupado denuncia aos céus, pois não vale a pena trocar grandes belezas por desesperadas preocupações inventadas.

E das complexidades de um viver sistemático deparou-se com as grandiosidades do sonhar autêntico. As leves passadas intensificaram os pensamentos descontrolados pela forte ventania do problematizar. Endireitei-me formalmente em frente a luz que transpassava minha mente e as descobertas foram exacerbadas. Não sei o que há com a noite, quais são seus encantos irresistíveis que sentimentalmente me obrigam a criar. Cada instigar é uma metamorfose que penetra a alma apenas em constantes imaginários. Sinto olhos que me observam, talvez sejam os meus que condenam minha “eterna falta do que falar”. Permito-me o inesperado e levo inconstantemente um desentrelaçar perpétuo. Pelos caminhos do meu próprio existir acalento minhas emoções exacerbadas e meus desesperos passados. De leves delírios alados flutua num certo desejar. O transformar-se não se realizará em 7 grandiosos dias, sendo que relutante sempre se é. Contudo, avança de perspicazes momentos e de maturados eventos. Lembra-se das fomentadas experiências. Repito palavras, mas não seus âmagos intimados.

Complexidades bem vividas e intensidades partidas. Fez-se o profundo em mares perturbadores e desejou que as nuvens penetrassem almas descabidas. A marca mora nos corações sentimentais e corajosos. Deparou-se com reflexos falsos. Respirou ares de grandes infinidades. Olhos marejados umedeceram noites de insanidade. A vida pareceu lenta e extraordinária. Os passos foram contidos e desconectados. Recordo da virada entre os anos em que acreditei que o erro na contagem faria dos meus dias rotinas devastadas. Os fatores jamais influenciaram tanto o resultado final. O inesperado veio aconchegante. Os sorrisos delirantes. Identidades infindáveis e desconstruídas. Palavras fracas e sussurros cortantes. Pesadelos amedrontados e movimentos rompantes. Cada lua pertenceu a uma experiência irreconhecível. Aquele degrau da maturidade foi escalado e bem concebido como primeira tarefa juvenil. Ouço outra trilha sonora. Alimento-me de aspirações inevitáveis e de um existir certamente mais leve. Saudades, lembranças, imagens. Memória. A chuva que acalenta o solo, o amanhecer de um sol sincero e a maciez de uma roupa recém-lavada. Se algum sentido tiver, talvez devesse viver de mais algumas incertezas.

O ser humano tem um quê de extravagância em seu jeito de ser. O agir é suspeito e a confiança que um dia existiu já não penetra mais as almas nesse purgatório terrestre. Bem ou mal, diz-se que os corpos se anulam diante da impureza do existir sem respeitar os limites do outro. Não cabe ao cérebro humano um real julgamento do que o cerca. As palavras rolam soltas como adolescentes inconsequentes em uma noite de sábado. A vida sempre foi complicada e as questões sempre estiveram à deriva. Agora, a repetição de um erro faz-se incompreensível dentro do meu pensar. A utopia tornou-se tão absurda a ponto de a ilusão afogar-se em lágrimas ferventes. Já não caminho, corro. Já não observo, apenas certifico. Já não absorvo, desmorono. A aflição deseja retrair os corações amenos e esperançosos. Ao chegar na escuridão, não senti medo. Vi estrelas. As janelas estão abertas, a cortina balança com a brisa da madrugada. Sinto o cheiro de uma normalidade falível. O chá quente que desliza em minha garganta seca se equaliza com minha alma que sensível se preenche de desagradáveis experimentos. Por mais alta que a música penetre os ouvidos e por mais instável que a luz se prontifique, os paradigmas desajeitados persistem sem brechas visíveis. O mundo que vejo hoje bambeia minhas pernas como um susto a ver filmes de terror. Quem são aqueles escolhidos, quem são aqueles prescritos nas profecias. Meu maior pavor é crescer e deixar de acreditar. O relógio insiste em seu infinito tempo e eu adormeço perante os ideais que me sustentam.

Perco mais tempo na busca de uma inspiração sonora do que necessariamente na produção dessas meras palavras. A mente é ousada e preocupa a alma com invariáveis desajeitadas. Abrace meu âmago diante da luz fraca que permeia as longas cortinas rasas. Em um caminhar ameno os pés desesperados por um rumo estacionam em confortáveis experiências de uma certeza já conhecida. Os olhos que me fitam inconscientemente em meus sonhos parecem confusos diante da beleza de um horizonte desmaterializado. Naquela noite desejei um teletransporte imediato para os pensamentos do outro que me encarava. Descanso meus ossos pesados em meio ao flutuar ameno de um imaginário desconhecido. Subo no sótão, abro a janela e me acomodo no parapeito. Engraçado não ter o medo de altura. E ao longe me deparo com sensações concluídas, fatores incompletos, verdades diluídas, marcas eternas, pensamentos corrompidos e futuros incertos. A certeza é de que a dúvida e as angustias sempre cálidas constroem algumas boas paisagens acolhedoras de essências forjadas.

E a saudade já vem de esmagar a alma contra as paredes do quarto silencioso na madrugada fria de primavera curitibana. O Teatro é uma casa de períodos curtos, porém realmente intensos. O cheiro é sua marca registrada, é um reviver de arte, é a emoção guardada em cada cadeira, cada coxia, nos camarins, na madeira do palco, até a cabine de luz. Um ritual, preparações, concentração, aula, aquecimento, a roda, energia, unidade, personagem, ‘merda’. Os sinais infinitos em seu existir, o chão range, saltos, espaço, foco. Durante a espera nos bastidores você fita do outro lado um coelho no aguardo, as cortinas estáticas, as luzes penetrantes. O corpo pede a sensação, o afundar-se, o mergulho, a alma deseja o ser, a união, a arte, a obra, o tornar-se. As temporadas amadurecem, fortalecem, marcam. Tudo é poesia dentro do criar. Faço-me mais veemente a cada cicatrização. As noites seguintes permanecem em um vazio temporário, de reajustes desajeitados. Os músculos se contorcem, os ossos pesam, mas a mente flutua, pede o movimento, o dançar, o transportar-se, o delay temporal. Aguardo ansiosamente nosso próximo encontro como uma criança à espera de seu aniversário, ou dois amantes apaixonados no aguardo de seu novo reencontro de olhares e afagos, ou ainda como a lua que ansiosa conta com o cair da noite. Nos vemos em breve.

Em alguns pontos torna-se ameno e sentimental e em outros é um mero existir. De causas e efeitos surge uma inesperada catástrofe interior. Então,sendo ainda egocêntrica, pergunto-me se diante desse mundo de mortos-vivos tenho o direito de falar de mim. Ah, essa dúvida que me corrói aos poucos e que me reintegra paralelamente. Na mais profunda existência a alma se deixa perseguir por fatais imersões, falsas, desesperadas e crescentes questões. E que direitos tenho eu de ir e vir em relação a sua mente? Poupe-me do seu ódio gratuito e do seu âmago vazio. Não ouse prender-me em negatividades e imensas marés de desgostos. Se a troca deve existir que seja farta dos mais variados poemas. A verdade é que vive-se perante o querer suspeito do possível ser o outro. Se acreditar, lutar e desejar são falhas, com orgulho digo que me intensifico nelas. Certezas nenhumas, perguntas agudas e extremismos inerentes. Salve-se quem puder da tristeza mais cortante do que os ventos invernais. A repetição às vezes é um erro. Escolha uma verdade, mas não me faça engoli-la sem antes desconstruir o tal paradigma. Se a intenção é chegar de mansinho nem venha, o mundo já prefere viver dos sustos que sustentam e não dos imaginários utópicos.